Não existe um modo certo de fazer um puzzle, assim como também não existe um modo certo de fazer um personagem, um sistema, ou uma trilha sonora para um jogo. O que existe são métodos e processos pensados e criados para auxiliar o designer no seu trabalho. Este e os próximos artigos abordarão exatamente isso: métodos, processos, ideias e abordagens que ajudam o designer a criar excelentes puzzles.
Neste artigo, vamos explorar como a definição do QUE é um puzzle está intrinsecamente ligada ao COMO fazer um puzzle. Após entendermos que essa definição por si só é limitada, exploraremos uma abordagem prática para o design de puzzles.
O artigo O que é um puzzle? (pt-br) explora algumas definições de puzzle e apresenta uma nova. É essa a definição que utilizamos por aqui, então para descobrirmos como fazer um puzzle, precisamos entender como essa nova definição de puzzle impacta o design na prática.
Um puzzle é qualquer desafio cognitivo lúdico, geralmente com apenas uma solução, onde todas as mudanças de estado ou são controladas, ou podem ser deduzidas pelo jogador.
Desafio cognitivo.
O designer precisa criar um desafio focado principalmente no uso ativo das habilidades mentais do jogador. O jogo até pode requerer outras habilidades, desde que não seja exigente demais com elas. Um exemplo disso é o jogo Portal, nele o jogador ainda precisa mirar e atirar os portais (um desafio de precisão), mas isso é sempre bem secundário e fácil de ser executado.
Geralmente com apenas uma solução.
Isso significa que primeiro, todo puzzle tem uma solução, segundo, que existem puzzles com mais de uma solução, mas geralmente ou essas soluções alternativas são um erro de design, por exemplo em um puzzle que tem uma solução super fácil que o designer não percebeu, ou a solução alternativa é só um modo um pouco diferente de executar a mesma ideia.
Todas as mudanças de estado ou são controladas, ou podem ser deduzidas pelo jogador.
Os efeitos práticos dessa afirmação são simples, ela quer dizer que o desafio não poder ter aleatoriedade, informações escondidas inacessíveis, nem nenhum outro tipo de regra que gere resultados imprevisíveis.
Esclarecer os efeitos práticos da definição no design é importante, pois a resposta mais fundamental para a pergunta "como fazer um puzzle?" é: crie um desafio que se encaixe na definição de puzzle, e pronto, está feito. No entanto, essa resposta não é muito útil para um designer que já possui sistemas e regras bem definidos e quer usá-los para criar um puzzle. Para ajudar esse designer, precisamos sair desse nível fundamental e subir para um espaço mais subjetivo, falando sobre uma abordagem para o design de puzzles.
Como fazer um puzzle? A melhor resposta que eu conheço para essa pergunta é: tenha uma visão.
<aside> 📌 Visão
Objetivo claro e específico.
</aside>
Eu já vi pessoas, incluindo eu mesmo, tentando criar um puzzle sem saber exatamente onde queriam chegar, adicionando vários elementos de forma arbitrária dentro de um espaço igualmente arbitrário, esperando que um puzzle emergisse disso. Embora esse seja um processo exploratório válido, ele costuma ter um resultado final muito imprevisível e pouco produtivo. Ocasionalmente, até podemos encontrar algo de valioso, mas na maioria das vezes o resultado é ou uma bagunça sem sentido ou um puzzle genérico, sem nada de especial ou interessante.
A abordagem que vamos explorar aqui é o oposto disso, é sobre concretizar uma visão através de um puzzle. Para isso, tudo que a gente precisa fazer é focar em criar um puzzle ao redor de um objetivo claro e específico.
“Criar um puzzle ao redor” significa que o puzzle serve ao objetivo, que ele é um meio de alcançar a visão. “Objetivo claro e específico” porque o designer precisa compreender com precisão qual é seu objetivo com o puzzle e porque esse objetivo deve restringir a gama de possibilidades de criação. Por exemplo, “Criar um bom puzzle” é um objetivo muito amplo e, por isso, pouco útil. Agora, “introduzir a regra X de forma que, quando ela for acionada pela primeira vez, o jogador seja surpreendido” é um objetivo bem mais claro e específico, capaz de gerar um puzzle único e memorável.
Ao enfatizar a necessidade de uma visão ao criar um puzzle, essa abordagem traz clareza e intenção para o processo de design, sem limitar a liberdade criativa. O designer pode definir os mais variados objetivos, como: introduzir uma mecânica, fazer uma piada, subverter um comportamento aprendido, cruzar duas ou mais mecânicas de forma inesperada, etc.
Essa abordagem de design de puzzle depende muito da visão que o designer tem para o puzzle. Se o designer criar o puzzle ao redor de algo chato, o puzzle vai ficar chato. O mesmo acontece se o designer criar o puzzle ao redor de uma ideia que já foi boa, mas que foi usada tantas vezes que perdeu a graça.
Por isso, existe uma abordagem complementar, mais abrangente, que é a de que o designer deve sempre tentar mostrar algo interessante, novo ou surpreendente para o jogador. Combinando essas duas abordagens, qualquer designer estará mais do que preparado para criar puzzles incríveis.